"Esta noite, no derrame das memórias,
nutriste com a tua presença
o memorial acesso da nossa história.
Esta noite, no cálice que te ofereci,
coloquei depositadas, uma a uma,
pétalas soltas
das mágoas e das tristezas,
que me debilitam, que me fragilizam
em dor, na seiva de um bem-querer
maior.
Esta noite, o sal das minhas lágrimas,
salgou o mar a escorrer-se virginal pelo teu corpo
e a negra noite, amado,
... a noite, envergonhada, escondeu-se dentro de ti,
quando, numa dança ébria, sem fim,
dancei a Lua plena da tua alma,
ao compasso sincopado de um tango antigo,
e logo de uma valsa lenta,
dulcíssima,
mansa, serena,
sobre a irreverência do teu gesto
desmedido
engalanado em êxtase num sorriso de criança
no momento exacto em que soltei
a mordaça que me oprime o voo aberto,
que me assombra o pulsar amotinado
do gesto até aqui resguardado no lugar
preciso onde o luar diurno naufragou.
Esta noite, fui em ti a flor aberta
de um paraíso secreto por ti cultivado
na dolência
na ausência
na cadência
dum comum pulsar
de cascos ávidos sobre as ondas agitadas de alto mar."
Mel de Carvalho
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