sábado, 31 de dezembro de 2011

Amigo

"Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!"



Alexandre O'Neill

Ser poeta

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!"

Florbela Espanca
  

domingo, 25 de dezembro de 2011

Quem?

"Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Floresce!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer."


Almeida Garrett 

Tarde demais

"Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!..."


Florbela Espanca

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A boneca

"Deixando a bola e a peteca
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca... "


Olavo Bilac

Perdão

"Seria o beijo
Que te pedi,
Dize, a razão
(outra não vejo)
Por que perdi
Tanta afeição?
Fiz mal, confesso;
Mas esse excesso,
Se o cometi,
Foi por paixão,
Sim, por amor
De quem?... de ti!
Tu pensas, flor
Que a mulher basta
Que seja casta,
Unicamente?
Não basta tal:
Cumpre ser boa,
Ser indulgente.
Fiz-te algum mal?
Pois bem: perdoa!
É tão suave
Ao coração
Mesmo o perdão
De ofensa grave!
Se o alcançasse,
Se o conseguisse,
Quisera então
Beijar-te a mão,
Beijar-te a face...
Beijar? que disse!
(Que indiscrição...)
Perdão! perdão!"


João de Deus

Solemnia Verba

"Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...


Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!


Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,


Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor."


Antero de Quental

A um poeta

"Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!" 


Antero de Quental

Há palavras que nos beijam

"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."


Alexandre O'Neill

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Os meus versos

"Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!..."


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

"Distância e longa ausência prejudicam qualquer amizade, por mais desgostoso que seja admiti-lo. As pessoas que não vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo até ao estado de noções abstractas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional, de tradição. Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos, nem que sejam apenas os animais de estimação. Tão presa aos sentidos é a natureza humana..."

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Distância

"Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento

Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!..."



Fernanda de Castro, in "Antemanhã"

Ode ao gato

"Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino."



José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"

Melancolia

"Oh dôce luz! oh lua! Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que fluctua
De engano em desengano!
Oh creação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dôr que nos opprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,
E tu, reflexo vago
D'um sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz orphã do dia!
Que mystica harmonia
Ha n'essa luz tão fria,
E a sombra que me guia
N'este areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
(Sem mêdo que se illuda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A orbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
As victimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as d'essas féras brutas...
E as lastimas, as luctas
Da orphã e do pobre!"

João de Deus, in 'Ramo de Flores'

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Há certas horas


"Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...
Não precisamos da paixão...
Não queremos beijo na boca...

Há certas horas, que só queremos a mão no ombro,
...
o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado...
Sem nada dizer...

Alguém que ria de nossas piadas sem graça...
Que ache nossas tristezas as maiores do mundo...
Que nos teça elogios sem fim...
E que apesar de todas essas mentiras úteis,
nos seja de uma sinceridade inquestionável...

Alguém que nos possa dizer:
Acho que você está errado,
mas estou do seu lado...

Ou alguém que apenas diga:

Sou seu amor! E estou AQUI!!"

William Shakespeare

domingo, 18 de dezembro de 2011

Enquanto houver amizade

"Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre."



Albert Einstein

Somos...

"Somos o avesso um do outro. Quando duvidas, páras, e eu sigo em frente. Quando tens medo, eu tenho vontade; quando sonhas, eu pego nos teus sonhos e torno-os realidade; quando te entristeces, fechas-te numa concha e eu choro para o mundo; quando não sabes o que queres, esperas e eu escolho; quando alguém te empurra, tu foges e eu deixo-me ir.
Somos o avesso um do outro: iguais por fora, o contrário por dentro. Tu proteges-me, acalmas-me, ouves-me e ajudas-me a parar. Eu puxo por ti, sacudo-te e ajudo-te a avançar. Como duas metades teimosas, vivemos de costas voltadas um para o outro, eu sempre à espera que tu te vires e me abraces, e tu sempre à espera que a vida te traga um sinal, te aponte um caminho e escolha por ti o que não és capaz."



Margarida Rebelo Pinto

Acredita

".. Acredita que o tempo em que estamos com aqueles que nos querem bem é sempre um tempo ganho, como quem acumula pontos de felicidade para o futuro. .."

Margarida Rebelo Pinto

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Meu camarada e amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.


Ary dos Santos, in 'Resumo'

As palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

Uma palavra

"Uma palavra é como a nota que procura outras para um acorde perfeito."


Eugénio de Andrade in "Rosto Precário"         

Bem Sei, Amor, que é Certo o que Receio

Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
Mas tu, porque com isso mais te apuras,
De manhoso, mo negas, e mo juras
Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.

A mão tenho metida no meu seio,
E não vejo os meus danos às escuras;
Porém porfias tanto e me asseguras,
Que me digo que minto, e que me enleio.

Nem somente consinto neste engano,
Mas inda to agradeço, e a mim me nego
Tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh poderoso mal a que me entrego!
Que no meio do justo desengano
Me possa inda cegar um moço cego?


Luís Vaz de Camões in "Sonetos"

sábado, 10 de dezembro de 2011

Estou crescendo

(...)

"Fechei os olhos e num único fôlego
desejei ver as pessoas mais devagar,
desejei ser eu mesma e vê-las
em retratos daguerreótipos.

Contei os anos
nos tijolos nas minhas paredes:
elas estão caindo
e ainda não consigo tocar meus sonhos
- mas estou crescendo."
 
Kenia Cris

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A lua

Na fúria dos ventos,
Sorrindo com a boca
Num céu azulado
Brandou em pedaços de pele suando
Fragmentos de pedra saíam
(...),Suave ternura
O sol em brasa sai do espaço
Suavemente a lua ficava
Transportando dali cavalo dourado.
Deslizando em ondas
Enfrentando a fúria dos ventos
Ficando ancorado na rua da glória
Em toda clareza da vida
com a vaidade o vento zoava...
Investigando a razão
Fiquei apaixonada.
Desagradando a visão o coração chorava
pede pernas para voar (...)
Dizia ansiosa que você volte logo
O relógio falava.


Maria de Fátima Borges Magalhães

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Nuvens

“Nuvens costumam ser muito temperamentais. Qualquer ventinho as empurra de um lado para o outro, e assim elas mudam de cor, e de humor, a todo momento. Mas uma coisa é certa: toda nuvem, desde pequena, sabe que um dia terá de chorar."


Alice Ruiz e Edith Derdyk in "Nuvem feliz"

Sonhar é...

"Sonhar
é
o horizonte alcançar
e o impossível tentar.
É obstáculos ultrapassar
e talvez – os sonhos – concretizar.

Sonhar
é
a imaginação
ousar,
e desejar
uma visão
que origine criação.

Sonhar
é
uma faculdade moldar.
É uma ténue tentativa
de uma realidade cativa,
emancipar.

Sonhar
é
um impulso criador.
Algo que não se consegue sem dor.
Acordar?
Só para atingir o sonho,
que anseio repetir
aqui,
por ti,
sem nunca deixar de o abraçar."


in Letras, Palavras e Linhas: Gestos pela diferença

Crónica de uma ausência anunciada

"dizer-te o quanto é duro estar assim
(se tudo em quanto crera se desfaz),
se o tu que em ti eu via era em mim:
que verei mais?

dizer-te o quão difícil foi ouvir-te,
se em tudo o que dizias - por demás -
buscava o tu que eu via destruir-me:
que ouvirei mais?

dizer-te que eu - então - mal entendia
a ira que alterava a tua voz
e a treva que teu negro olhar vertia
por sobre nós.

dizer-te que - talvez - entenda agora
(embora tu te percas em bemóis)
evitas-me a resposta e peroras,
falseando a voz.

dizer-te que é assim - neste momento - ,
(clareiam-se os motivos por detrás?)
não peças que me esquive ao sentimento
de não ser mais.

e deixa que esta dor se espraie e fique
um tempo impreciso dentro em mim,
amor que vem faz outro ir a pique:
diz-se então fim.

não sei dizer-te - hoje! - o que virá
(pois disso se encarrega o amanhã):
qual tu dos teus, em mim, firmar-se-á
noutra manhã?

portanto não estranhes se eu sumir,
(de todo bem-querer eu me ausentar),
se um tempo há de ser e um de partir:
por que ficar?

dizer-te: guarda tudo o que tivemos
(talvez bem te compraza tê-lo ainda)
um pouco há, do tanto que nos demos,
que não se finda.

e segue adiante e cuida: sê feliz.
prossegue o teu caminho a céu aberto.
se um gesto te lembrar quanto eu te quis
: estarei perto."


Márcia Maia

Saudades... e porque não?

"Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!"


Florbela Espanca

domingo, 4 de dezembro de 2011

Esta Noite

"Esta noite, no derrame das memórias,
nutriste com a tua presença
o memorial acesso da nossa história.

Esta noite, no cálice que te ofereci,
coloquei depositadas, uma a uma,
pétalas soltas
das mágoas e das tristezas,
que me debilitam, que me fragilizam
em dor, na seiva de um bem-querer
maior.

Esta noite, o sal das minhas lágrimas,
salgou o mar a escorrer-se virginal pelo teu corpo
e a negra noite, amado,
... a noite, envergonhada, escondeu-se dentro de ti,
quando, numa dança ébria, sem fim,
dancei a Lua plena da tua alma,
ao compasso sincopado de um tango antigo,
e logo de uma valsa lenta,
dulcíssima,
mansa, serena,
sobre a irreverência do teu gesto
desmedido
engalanado em êxtase num sorriso de criança
no momento exacto em que soltei
a mordaça que me oprime o voo aberto,
que me assombra o pulsar amotinado
do gesto até aqui resguardado no lugar
preciso onde o luar diurno naufragou.

Esta noite, fui em ti a flor aberta
de um paraíso secreto por ti cultivado
na dolência
na ausência
na cadência
dum comum pulsar
de cascos ávidos sobre as ondas agitadas de alto mar."


Mel de Carvalho