sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Aos que partiram



Lá fora o veneno, a solidão, o abandono

Sentes?

O tempo congelou os ponteiros dos relógios

É urgente a fuga dos dias, das dúvidas e das amarras

Lá fora o veneno, a solidão, o abandono

Sentes?

Gritamos por aquilo que não é nosso

Nem do tempo

Queremos o espaço, do beijo a boca húmida de certezas

E uma esperança

De uma cama cheia de nós


Rogério Samora


Veja o projecto solidário de Rogério Samora em https://rogeriosamora.pt/rogerio-samora-projeto-202-1/

sábado, 26 de junho de 2021

Homenagens e outros Epitáfios

Em Lisboa com Cesário Verde in "Homenagens e outros Epitáfios" de 1986


Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que os gatos persas;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também,

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu sei já bem.


Só ele ajusta a luz feliz dos seus

versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

dum verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

o sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da língua.




Jacarandás

São eles que anunciam o verão. 
Não sei doutra glória, doutro 
paraíso: à sua entrada os jacarandás 
estão em flor, um de cada lado. 
E um sorriso, tranquila morada, 
à minha espera. 
O espaço a toda a roda 
multiplica os seus espelhos, abre 
varandas para o mar. 
É como nos sonhos mais pueris: 
posso voar quase rente 
às nuvens altas – irmão dos pássaros –, 
perder-me no ar.

Eugénio de Andrade





sexta-feira, 14 de maio de 2021

Um dia fiz-te um poema

 


Um dia fiz-te um poema. 
Um poema que falava de ti, de como eras linda e fascinante. 
Um poema que te descrevia tão bem
Pois já te conhecia como a palma da minha mão.
Foste uma parte muito importante da minha vida por 11 anos.
Mas para quê escrever-te um poema
Se tu, meu doce, já eras tu mesma um poema!
Foste uma guerreira.
Amorosa, por vezes
Caprichosa outras vezes
Mas sempre com muita personalidade. 
Eras a rainha da casa.
Eras quem me esperava à porta quando eu chegava. 
Eras quem me esperava à porta quando eu ia tomar banho. 
Eras a minha sombra. 
Protectora, leal...
Gostavas da nossa companhia, mas também gostavas da tua privacidade. 
Foste o melhor presente que alguém alguma vez me deu. 
Hoje foi um dia muito doloroso. 
Nunca te esquecerei! 
Ficarás para sempre no que resta do meu coração. 


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Quando te vejo



Quando te vejo, a primavera desponta em mim num festival de flores e cores. 

Quando te vejo, o meu sangue ferve como a lava de um vulcão. 

Quando te vejo, a borboleta em mim abre as asas e rodopia com a força de um furacão. 

A tua voz evoca uma doce melodia. 

Ao compasso de uma música em perfeita harmonia. 






Quando te vais embora, anoitece 

E o meu céu de negro se reveste. 

E o inverno regressa ao meu coração.






segunda-feira, 19 de abril de 2021

O pescador







Ao longe, um farol ilumina o oceano escuro como breu

As estrelas cintilam na imensidão do céu

Um pequeno barco ao sabor das ondas

Nele, um pescador que trabalhou sem descanso em busca de alimento

Outra noite em que a faina foi escassa

Outra noite longe de casa... 

Mas os seus braços, cansados, não desistem, pois deles depende o sustento

E lança a rede esta noite pela última vez... 

No horizonte já se vê o amanhecer

As estrelas já parecem desaparecer

O farol já não parece tão imponente

As ondas lambem o barco, suavemente

Impelindo o pescador a terra firme

E com ele o sentido do dever cumprido

Mesmo que não tenha sido tão produtivo... 

Ele deixa para trás o mar gelado

Pisa a areia, recolhe as redes

Escolhe o peixe, apressado, colocando-o dentro de um cesto 

E faz o caminho que tão bem conhece

A madrugada se faz dia

O sol nasce com esplendor

O pescador regressa ao seu maior bem: a sua casa, a sua família, o seu amor


By simplyme

Há palavras





Há palavras que nos salvam, que nos falam, nos embalam, que nos tocam, ou que nos faltam... 

Há palavras que calam a dor, 

Tristemente compassivas

Outras que são suicidas 

Outras que morrem por amor

Há palavras não sentidas

Desalinhadas, perdidas

Há as que mesmo silenciadas, amordaçadas e não ditas

Calam fundo, desmedidas

No coração, naufragadas

Entre o silêncio e o desejo de gritá-las ou de trancá-las dentro do peito, impedindo-as de sentir

Há as que são levadas pelo vento

As que não têm sentimento... 

Há as que adormecem comigo quando me deito e vou dormir


Autora: Simplyme

sexta-feira, 9 de abril de 2021

O tempo não pára - Mariza

Eu sei que a vida tem pressa

Que tudo aconteça sem que a gente peça

Eu sei

Eu sei que o tempo não pára

O tempo é coisa rara

E a gente só repara quando ele já passou

Não sei, se andei depressa demais

Mas sei, que algum sorriso eu perdi

Vou pedir ao tempo

Que me dê mais tempo, para olhar para ti

De agora em diante, não serei distante

Eu vou estar aqui

Cantei

Cantei a saudade

Da minha cidade

E até com vaidade

Cantei

Andei pelo mundo fora

E não via a hora

De voltar pra ti

Não sei, se andei depressa demais

Mas sei, que algum sorriso eu perdi

Vou pedir ao tempo

Que me dê mais tempo, para olhar para ti

De agora em diante, não serei distante

Eu vou estar aqui

Não sei, se andei depressa demais

Mas sei, que algum sorriso eu perdi

Vou pedir ao tempo

Que me dê mais tempo, para olhar para ti

De agora em diante, não serei distante

Eu vou estar aqui




No teu poema - Carlos do Carmo

No teu poema

Existe um verso em branco e sem medida

Um corpo que respira, um céu aberto

Janela debruçada para a vida


No teu poema existe a dor calada lá no fundo

O passo da coragem em casa escura

E, aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite

O riso e a voz refeita à luz do dia

A festa da Senhora da Agonia

E o cansaço

Do corpo que adormece em cama fria

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte


No teu poema

Existe o grito e o eco da metralha

A dor que sei de cor mas não recito

E os sonos inquietos de quem falha


No teu poema

Existe um canto, chão alentejano

A rua e o pregão de uma varina

E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio

O canto em vozes juntas, vozes certas

Canção de uma só letra

E um só destino a embarcar

No cais da nova nau das descobertas

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte


No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda escapa

E um verso em branco à espera de futuro. 




Sete letras - Ary dos Santos

Esta palavra saudade

sete letras de ternura

sete letras de ansiedade

e outras tantas de aventura.

Esta palavra saudade

a mais bela e mais pura

sete letras de verdade

e outras tantas de loucura.

Sete pedras, sete cardos, sete facas e punhais

sete beijos que são nardos

sete pecados mortais.

Esta palavra saudade

dói no corpo devagar

quando a gente se levanta

fica na cama a chorar.

Esta palavra saudade

sabe a sumo de limão

tem o travo de amargura

que nasceu do coração.

Ai! palavra amarga e doce

estrangulada na garganta

palavra como se fosse

o silêncio que se canta.

Meu cavalo imenso e louco

a galopar na distância

entre o muito e entre o pouco

que me afasta da infância.

Esta palavra saudade

é a mais prenha de pranto

como um filho que nascesse

por termos sofrido tanto.

Por termos sofrido tanto

é que a saudade está viva

são sete letras de encanto

sete letras por enquanto

enquanto a gente for viva.

Esta palavra saudade

sabe ao gosto das amoras

cada vez que tu não vens

cada vez que tu demoras.

Ai! palavra amarga e doce

debruçada na idade

palavra como se fosse

um resto de mocidade.

Marcada por sete letras

a ferro e a fogo no tempo

Ai! palavra dos poetas

que a disparam contra o vento.

Esta palavra saudade

dói no corpo devagar

quando a gente se levanta

fica na cama a chorar.

Por termos sofrido tanto

é que a saudade está viva

são sete letras de encanto

sete letras por enquanto

enquanto a gente for viva.



sexta-feira, 19 de março de 2021

Como nascem as doenças




- Engole o choro!
- Engole sapo!
- Cala a boca!
- Cala o peito...

Mas o corpo fala, e como fala!
Falam as pontas dos dedos batendo na mesa...
Falam os pés inquietos na cama...
Fala a dor de cabeça.
Fala a gastrite, o refluxo, a ansiedade.
Fala o nó na garganta atravessado.
Fala a angústia, fala a ruga na testa.
Fala a insónia, o sono demasiado... 

Você se cala, mas o falatório interno começa.
As pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro dos seus corações...

Expressar-se tranquiliza a dor!
Dor não é pra sentir pra sempre...
Dor é vírgula! Então faz uma carta, um poema, um livro.

Canta uma música. Faz piadas, escreve textos, dança, pinta, faz encontros com amigos, nem que sejam virtuais...
Faz corrida no parque.

Conversa sozinho, com o seu cão ou gato, solta um grito para o céu, mas não se cale!!! Pois “se você engolir tudo o que sente, no final, você se afoga!”

Medite, leia, estude, ore mais... não interiorize!

O CORAÇÃO NÃO É GAVETA!